Segunda-feira, 7 de Junho de 2010

Amanhã vamos ter nordeste

 

 

 

 

 Mudança de tempo

 

 Ângelo Ribau

 

 

- Ó diabo. Amanhã vamos ter nordeste...

- Como é que sabe? Perguntou o Toino.

- Vês aquelas “pombinhas” acolá por cima da serra? E indicou pequenas nuvens brancas que se mantinham sobre a serra. É sinal de nordeste amanhã.

- …!

- Amanhã verás que eu tenho razão.

E partiram para a bateira de regresso a casa.

 

Novo dia, repetição do serviço do dia anterior. Rer, acarretar o sal para o monte que ia crescendo no malhadal, amanhar a marinha…

Só que neste dia o sal já era mais que no anterior. Na verdade o marnoto sabia o que dizia. Veio nordeste, vento quente, que aumentou a produção de sal. Neste dia cada meio produziu mais cerca de uma canastra de sal. Estávamos no mês de Junho, os dias eram mais compridos, havia mais tempo de sol, a produção subia e o trabalho aumentava. Felizmente que ainda não havia feridas nos pés. Quando elas chegassem, com a temperatura da moira, seria um sacrifício enorme. Só quem já sentiu essas dores, pode avaliá-las. É de rilhar os dentes…

Quando se anda muito tempo com os pés dentro da moira e eles estão feridos, os “poços” chegam a atingir o osso…

 

Mais um dia, quase igual a tantos outros. Só que este mais trabalhoso. E, se o tempo continuar com nordeste, a produção de sal aumentará e o trabalho também, já que há aumento de produção, mas não aumento de pessoal para acompanhar o da produção!

Não tardarão muitos dias que, de tanto caminhar por machos e pranchas, as solas dos pés comecem a ficar desgastadas, comecem a aparecer “pintassilgos”, pequenas manchas vermelhas provocadas pelo desgaste das solas. Então, quando se anda a acarretar o sal e uma pedra maior é pisada pela sola do pé naquele local, atinge a “carne viva”. O Toino ainda rapaz novo, mas que tinha de alombar com a sua canastra, não conseguia evitar uma lágrima rebelde que lhe corria pela cara!

 

Mais outro dia, este pior que os outros, na perspectiva dos moços, melhor do ponto de vista do marnoto. A produção aumentava com as temperaturas, e os montes de sal era vê-los crescer no malhadal. A “roda” do monte (sítio mais alto onde chegava um homem com os braços esticados e onde ficava assinalado o formato das canastras do sal que aí era depositado), estava cheia. Era necessário agora transportar o sal para o cimo dos montes, para o curuto! Eram colocadas duas pranchas de madeira, uma que ia da base da eira até ao cavalete - uma espécie de dois triângulos ligados entre si por barras de madeira - e a outra do cavalete ao cimo do monte.

Se a tarefa em princípio era dura, agora essa dureza duplicava. As pranchas de madeira cheias de sal “comiam” as solas dos pés.

Enfim, era aquela a vida de quem trabalhava nas marinhas de sal, e não havia como fugir-lhe. Os trabalhos eram poucos naquela altura, e era para os homens, a agricultura ou as marinhas de sal, e para as mulheres as secas do bacalhau.

Havia ainda os estaleiros navais e as oficinas de serralharia e carpintarias, mas estes eram para pessoal com outras especializações.

Nas marinhas de sal, só o marnoto era altamente especializado. O restante pessoal era força bruta…

Havia que trabalhar. Era a solução! O nordeste duraria ainda mais uns oito dias segundo as previsões do marnoto, e a produção sempre a aumentar!

Desanimados, ainda ouvimos o moço mais velho dizer, enquanto comíamos ao meio-dia:

- O pior ainda está para vir…

- …!!!  Porquê? Perguntámos.

- Com a temperatura da moira provocada pelo nordeste, todas as pedras de sal se vão transformar em “pregos”. A marinha vai ficar “encaldada”, e dará muito mais trabalho. Os pregos parecem autênticos, (o sal fica muito duro), e espetam-se nas solas dos pés, provocando dores horríveis!

Assim foi. A temperatura da moira aumentava, a produção subia, e lá apareceram os “pregos” com todas as suas consequências…

Nesses dias vínhamos mais tarde da marinha, porque à tardinha, todos os meios tinham de ser “bulidos” para quebrar todos aquele sal, e para que no dia seguinte fosse mais fácil “rer”, tentando evitar toda aquela pregaria, o que nem sempre se conseguia.

 

 Assim passámos quase uma semana. Mas como é que o marnoto sabia que o nordeste iria durar uma semana?! Coisas que só a pratica da vida nos dá!

O tempo parece querer arrefecer. Ao fim da tarde, o vento do norte fresco, parecia querer vencer o do nordeste ainda muito quente…

O Toino perguntou ao pai se iríamos ter mudança de temperatura. Este olha desde a boca da barra, passa o olhar por cima do campo de aviação de São Jacinto, por cima da mata, até ao Muranzel. Aí pára, aspira o ar com força, olha as serras, e diz:

- Dentro de uns dois dias vamos ter norte fresco!

 

Valha-nos Deus, que já não será sem tempo, pensava eu. Ao menos aquelas temperaturas tórridas, a que não faltava sequer a falta de vento, irão acabar. Oxalá o meu pai também acerte desta vez!

Assim foi. Passados que foram cerca de dois dias, logo se notou pela manhã a temperatura a refrescar. O dia já foi menos quente, e, pela tarde, ao regressarmos a casa, chegados à “boca” do Esteiro dos Frades, foi dada ordem de içar a vela, que puxada pela “ustaga” se fez chegar ao cimo do mastro. Orientada pela escota, de acordo com a direcção do vento, lá ia a bateira em direcção ao seu ancoradouro, junto à seca do Egas. O marnoto, sentado no “cagarete”, governava a bateira e ia orientando a vela, puxando ou alargando a escota, que era presa na borda de sotavento. Com vento fresco a viagem era rápida, e o esforço praticamente nulo. Era só içar a vela, e arriá-la ao chegar ao ancoradouro.

 

Com a falta de temperaturas muito elevadas a produção de sal ia lentamente baixando. Mas, mesmo assim, trabalho nunca faltava.

Os tabuleiros onde o sal escorria, para depois ser transportado para o monte, os “machos” por onde passávamos com as canastras cheias de sal, não eram mais lama dura. O sal tinha-se entranhado na lama e aqueles locais eram autênticas máquinas de lixar as solas dos pés.

Só quem andou naquela vida pode fazer uma ideia correcta dos sacrifícios que o pessoal das marinhas passava.

 

Estávamos em Agosto (era o primeiro mês de “Inverno” para as marinhas, palavra de marnoto), dado que começavam os primeiros nevoeiros e a produção de sal diminuía a olhos vistos!

- Hoje trouxe uns sacos para levar sal para casa, diz o marnoto. Quando chegar o Inverno tenho de ter sal para salgar o porco, quando for a matadela. Logo não vimos para o Egas. Vamos para a Cambeia, que tenho lá a minha mulher à espera com o carro dos bois.

E assim foi. Terminado os trabalhos do dia, foram enchidos os sacos, e transportados em padiola para a bateira.

Depois de arrumadas as alfaias no palheiro, fechado este e arrumadas as chaves num buraco de ratas, demos início ao regresso a casa. O vento era fraco, mas mesmo assim içámos a vela, e lá viemos, desta vez em direcção ao Esteiro do Oudinout, por onde chegaríamos à Cambeia. Mais adiante, no Jardim do Oudinout, as árvores que eram altas impediam o vento de chegar à vela, pelo que a solução era os moços saltarem para terra e com uma corda (a cirga), puxarem eles a bateira pelo Esteiro fora, que tinha cerca de dois quilómetros de comprimento, enquanto iam conversando.

O marnoto, sentado no cagarete, ao leme, ia governando a bateira, para que não fosse contra as estacas de cimento, ou se desviasse demasiado para o meio do esteiro.

Um moço, já com idade, pequeno de físico mas rijo de nervos, pele tisnada pelo sol e também pelo vinho que diáriamente ingeria, avistou um grupo de turistas sentados debaixo de uma árvore a merendarem, refastelados…

 

- Querem ver? Diz o Gandarinho!

- …

- Anda, puxa, rápido, mais depressa… mais depressa senão o peixe foge todo…

E nós, toca a puxar, cada vez mais rápido, feitos parvos, sem saber o que ia naquela cabeça…

As senhoras do grupo de turistas levantaram-se e pediram para nós lhe vendermos o peixe que estávamos a pescar, que era fresquinho, e que elas ali mesmo o assariam para o seu pessoal. Mas o Gandarinho era só:

- Puxa, Puxa…

O marnoto lá do seu cagarete ainda intimou:

- Ó João, não é preciso tanta pressa. Mas qual quê!

- O Gandarinho era só: - Puxa, Puxa…

 

Mais adiante, quando já não podia ser ouvido pelos turistas, o Gandarinho solta tamanha gargalhada, que o deixou da cor da pele de um tomate…

- Vês? Com papas e bolos se enganam os tolos…

- Aqueles viram uma bateira e logo pensaram que ia a pescar!

E isto, para ele, foi uma vitória… Só os “ricos” gozavam férias! E aqueles ali refastelados eram, para o Gandarinho, ricos…

Entretanto fomos andando e chegámos ao nosso destino. Agora era só passar por baixo de uma das “portas de água”, para poente, com cuidado, que elas eram de pedra. Passámos!

Lá estava o carro de bois à nossa espera. Descarregámos o sal e o carro seguiu para casa. Nós passámos novamente por baixo das portas de água, agora para nascente onde se encontrava o “moirão” a que íamos amarrar a bateira. Lá chegados, passámos o cadeado à volta do moirão, e já nos preparávamos para regressar a casa, quando aparece o Cabo de Mar, (autoridade marítima) com poderes para tal, a perguntar pela licença do moirão! O meu pai foi à proa da bateira, e mostrou-lhe a licença.

- Não, diz o Cabo de Mar. Esta é a do moirão localizado junto ao Egas. Este moirão precisa de outra licença…

- Mau, diz o meu pai zangado. A lei mudou?

- Mudou sim senhor, diz a autoridade, e você devia saber! Para não ser multado tem de apresentar a licença dentro de oito dias no “Posto”.

- Sim senhor. Assim farei! Cada moirão cada licença, sim senhor, disse entre dentes…

- Só me faltava esta, ia resmungando: - Faltar um dia à marinha por causa da porra de uma licença do moirão…

E durante o resto da tarde, não falava noutra coisa…

 

À noite à “ceia” ele teve uma ideia!

- Ó Toino! Tu amanhã não vais à marinha. Pegas na bicicleta e vais a Aveiro à Capitania, tratar da licença do moirão, para a Cambeia. És capaz disso?

- Sou sim senhor! Disse eu, pensando no dia seguinte, em que não precisava de ir à marinha!

- Então ficamos assim: - A Capitania, abre às nove horas, tu levas os documentos da bateira, que o registo é preciso. Vais lá de manhã e terás de lá voltar à tarde, que “eles” levam tempo a passar a licença. Perguntas quanto ela custa, e à tarde pedes dinheiro à tua mãe e vais lá, pagas e levantas a licença!

Assim foi. Tratei de tudo como me foi ordenado, e à tarde regressei, com a licença no bolso.

- Nem as duas viagens a Aveiro de bicicleta me custaram a fazer!

- Teria sido pior se tivesse ido à marinha naquele dia e tivesse andado a “alombar” com a canastra à cabeça…

 

Antes dos oito dias, a licença do moirão da Cambeia foi apresentada no posto do Cabo de Mar!

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publicado por Fernando Martins às 21:47
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