Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Da pena de D. João Evangelista


  
PELOS ARREDORES
DE AVEIRO



 

«À Gafanha, a Verdemilho, a São Bernardo e à Presa eram os passeios que eu mais preferia nas minhas férias de professor de Coimbra.
Quem me levava sobretudo à Gafanha era a água que, taumaturga por excelência, com o seu contacto, com o seu murmúrio, com as suas frescas exalações, me aquietavam brandamente os nervos, mais ou menos fora do ritmo pela continuidade das excitações académicas; e para tal ela não precisava mais do que duma sessão: à primeira vez era logo.
O que era necessário, porém, era que por acaso não se agarrasse como uma carraça aos lombos de um boi, a pessoa que ao tempo tinha em Aveiro a fama mais bem merecida e autenticada de maçador. Nesse caso estava perdido. Não mais nos largava.
Podíamos nós fazer menção, abrindo o breviário e pondo na devida ordem os registos, erguendo seraficamente os olhos ao céu como quem implora os seus auxílios para a oração, podíamos nós fazer menção por essa límpida forma de adiantar as Horas canónicas enquanto era dia, não sortia o expediente resultado absolutamente nenhum, já que o algoz não dava conta ou pelo menos não parecia dar conta destas manobras da sua vítima; continuava implacavelmente a mó a moer.
  Podíamos mesmo chegar aos extremos de levar as mãos à cabeça ou ao peito, como quem está na iminência de algum ataque, na própria iminência da morte; todos estes gritos de alarme, todos estes sinais fúnebres, resvalariam por um tal impertérrito como uma gota de azeite por um ferro quente; continuava o êmbolo no almofariz monotonamente a pisar. Estou até convencido de que, se eu dissesse: — precisaria de estar um momento sozinho, precisaria de me recolher por algum tempo em mim mesmo, cá por coisas de consciência; — Oh! Por amor de Deus, meu senhor — exclamaria ele com veemência — eu deixá-lo sozinho, renunciar a servi-lo em qualquer coisa que porventura lhe seja precisa, desdenhar de uma companhia tão nobre, tão preciosa; não farei tal!
E com redobrada energia, com esforço de perseverança, continuava invictamente no seu papel de estopante. Estou mesmo convencido de que, com a própria boca de um canhão ao peito, ele faria gentilmente uma vénia e prosseguiria, mesmo a essa pequena distância, a sonolenta tarefa de que os destinos, ao que se estava aver, o tinham encarregado no mundo.
Eu, uma vez, não me tive que não contasse ao Dr. Jaime de Magalhães Lima o encontro fatal: como tinha ido à Gafanha para conversar com as águas, para receber delas o benefício da sua frescura na fronte, mas que me tinha falhado por completo o projecto por se me ter ferrado nos ouvidos este impertinente mosquito.
Ele então saltou logo com uma dessas brilhantes e risonhas tiradas que eram um traço tão característico do seu espírito: — Ora vejam lá como as coisas são, como elas se tramam! Daqui a bocado começa a correr em Aveiro que o Padre João Vidal se tinha atirado à água num acto de desespero. Era fácil, a uma tal notícia, que se atingissem logo as últimas alturas do inesperado, do inconcebível, do paradoxo.»
(...)

 D. João Evangelista de Lima Vidal

 In AVEIRO: Suas Gentes, Terras e Costumes

 
publicado por Fernando Martins às 15:05
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